Quem está financiando a saúde suplementar?
- Edivaldo Bazilio

- há 3 dias
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Glosas elevadas, prazos mais longos de recebimento e inadimplência pressionam o caixa dos prestadores e colocam em discussão a sustentabilidade de hospitais e clínicas.
Por: Edivaldo Bazilio
CEO da Saúde Global

O medicamento já foi administrado, o material consumido, médicos e funcionários precisam ser pagos, impostos vencem e fornecedores têm seus próprios prazos. Mas o dinheiro referente àquela assistência pode levar mais de dois meses para chegar. E, antes disso, parte da conta ainda pode ser glosada. Mas quem financia esse intervalo?
Essa pergunta deixou de ser apenas operacional. Estamos falando de capital de giro, liquidez e, no limite, da capacidade de clínicas e hospitais sustentarem suas operações. E o problema não começou agora.
A saúde suplementar brasileira vem passando por um longo processo de consolidação. Em uma série comparável da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o número de operadoras médico-hospitalares com beneficiários caiu de 790, em 2016, para 667, em maio de 2026. No mesmo período, os vínculos em planos de assistência médica passaram de 47,7 milhões para mais de 53 milhões. Menos operadoras, mais beneficiários e maior escala. A receita de contraprestações também cresceu, de R$ 163,2 bilhões em 2016 para R$ 344,6 bilhões em 2025, em valores nominais.
A redução do número de operadoras não significa, isoladamente, que o sistema esteja em colapso. Mas mostra que a discussão sobre sustentabilidade econômica não nasceu agora. O que os indicadores recentes sugerem é que essa discussão pode estar entrando em uma nova fase, desta vez com atenção crescente sobre quem efetivamente presta a assistência.
O Observatório Anahp 2026 traz números que merecem atenção. A glosa inicial gerencial média dos hospitais associados passou de 11,89% em 2023 para 15,89% em 2024 e permaneceu em 15,93% em 2025. No mesmo ano, a glosa aceita contabilmente ao final do processo foi de 1,72% da receita bruta de convênios. Embora sejam indicadores conceitualmente diferentes e não devam ser simplesmente subtraídos, essa distância revela um ponto importante: existe um volume relevante de recursos submetido a contestação, análise, recurso e negociação antes de seu desfecho financeiro.
E esse processo tem custo. Não apenas pelo trabalho das equipes de faturamento, auditoria, conciliação e cobrança, mas principalmente pelo dinheiro que permanece fora do caixa enquanto a discussão acontece.
O prazo médio de recebimento dos hospitais associados à Anahp reforça essa preocupação: passou de 69,91 dias em 2024 para 77,35 dias em 2025. São 7,44 dias adicionais entre faturar e receber. Em uma clínica que fature, hipoteticamente, R$ 3 milhões por mês, esse acréscimo representaria cerca de R$ 744 mil adicionais sustentando o contas a receber, em vez de estarem disponíveis no caixa. É uma simulação simples, mas demonstra algo que os percentuais escondem: tempo também custa dinheiro.
Há ainda outro sinal. Entre os hospitais associados à Anahp, o índice de recebimento gerencial caiu de 91,27% em 2023 para 88,61% em 2024, enquanto o indicador de inadimplência das operadoras passou de 49,96% para 61,53%. Esse percentual não significa que 61,53% das contas deixaram de ser pagas; ele relaciona valores em aberto acima de 90 dias ao faturamento médio das instituições pesquisadas. Ainda assim, a direção dos indicadores merece atenção.
Glosas em patamar elevado, mais tempo para receber e maior volume de recursos fora do caixa convergem para o mesmo problema: a dificuldade de transformar assistência prestada em dinheiro disponível para sustentar a operação.
Produzir não é faturar. Faturar não é receber. E receber quase 80 dias depois não produz o mesmo efeito financeiro que receber hoje. Enquanto hospitais e clínicas aguardam, medicamentos já foram comprados, materiais consumidos, salários e honorários pagos, impostos recolhidos e fornecedores remunerados. Na prática, o prestador financia o intervalo entre realizar a assistência e receber por ela.
É aqui que surge uma armadilha particularmente importante para médicos empresários: crescer também pode consumir caixa. Uma clínica pode atender mais pacientes, ampliar produção e faturamento e, ainda assim, deteriorar sua posição financeira. Se o contas a receber cresce e o prazo de conversão dessa receita em dinheiro se alonga, a expansão exige cada vez mais capital de giro.
O efeito pode ocorrer em cascata: mais recursos imobilizados, consumo do caixa próprio, necessidade de crédito ou antecipação de recebíveis, aumento das despesas financeiras, compressão das margens e postergação de investimentos. Quando esse ciclo persiste, o problema deixa de ser faturamento. Passa a ser liquidez e, em operações financeiramente mais frágeis, pode alcançar a própria continuidade do negócio. Empresas não sobrevivem apenas de resultado contábil. Elas precisam de caixa.
Seria simplista transformar essa análise em uma acusação às operadoras. Elas também enfrentam aumento dos custos assistenciais, incorporação tecnológica, envelhecimento populacional, judicialização, fraudes, desperdícios e pressão regulatória. Auditoria e controle são necessários. A questão é outra: quando mecanismos legítimos de controle começam a gerar retenção de recursos, retrabalho e custos que aumentam a ineficiência da própria cadeia?
Na minha leitura, “quem está financiando quem?” tornou-se uma pergunta estratégica.
Médicos, hospitais e clínicas precisam conhecer não apenas quanto produzem e faturam, mas quanto efetivamente recebem, quanto é glosado, quanto recuperam, quanto permanece em aberto, há quanto tempo e qual é o custo financeiro desse ciclo.
Gestão de glosas, inteligência contratual, “aging” das contas a receber, prazo médio de recebimento e necessidade de capital de giro precisam sair do departamento de faturamento e chegar à mesa onde as decisões estratégicas são tomadas. Ao mesmo tempo, operadoras e prestadores precisam construir relações com regras mais claras, processos eficientes e maior previsibilidade de pagamento.
O passado mostra um mercado que precisou se consolidar e se transformar. O presente revela prestadores enfrentando ciclos financeiros mais desafiadores. E o futuro dependerá da capacidade de preservar a sustentabilidade de todos os participantes da cadeia.
Não existe saúde suplementar sustentável sem prestadores sustentáveis. Quando glosas, inadimplência e prazos crescentes passam a consumir capital de giro, pressionar margens e limitar investimentos, deixam de ser apenas indicadores do ciclo de receita. Tornam-se indicadores da capacidade de hospitais e clínicas continuarem operando.
A questão, portanto, talvez não seja apenas quem está financiando a saúde suplementar. É por quanto tempo hospitais e clínicas ainda terão capacidade de fazê-lo.




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